A Convidada da Festa
A festa de aniversário de Ellie estava a todo vapor, a casa ecoando com o som das risadas e gritos de excitação das crianças. Os balões flutuavam por todo lado, o bolo estava perfeitamente decorado com cobertura rosa, e os presentes estavam empilhados, esperando para serem abertos. Eu tentava ao máximo manter a calma, mas uma sensação incômoda pesava no meu estômago.
Minha filha mencionava a mulher bonita mais de uma vez na última semana, sempre com um sorriso largo no rosto. Eu ficava em silêncio, tentando fingir que não percebia, esperando que fosse apenas uma fase ou um mal-entendido. Mas, lá no fundo, minha mente corria com possibilidades—Quem era essa mulher?
Dei uma olhada rápida em Jake, que estava ajudando Ellie a soprar as velas. Ele parecia relaxado, sua risada genuína, mas algo no jeito como ele olhava para a porta me fez sentir um arrepio na espinha.
Concentra, Katie. É só uma festa, eu me disse. Está tudo bem.

Mas então, a campainha tocou.
Eu congelei. Meu coração deu um pulo. O rosto de Ellie se iluminou e ela correu até a porta, gritando: “Eu vou abrir!”
“Espere, querida—” comecei a falar, mas já era tarde. A porta se abriu, e lá estava ela.
Uma mulher. Alta, com cabelos castanhos longos, vestindo um vestido floral suave que se movia com o vento. Ela parecia acolhedora, familiar, quase como alguém que já pertencia ali, mas uma estranha tensão subiu pela minha espinha. Ellie sorriu para ela.
“Oi! Você veio! Fico tão feliz que tenha vindo à minha festa!” Ellie exclamou.
A mulher sorriu, se abaixando para ficar no nível dos olhos dela. “Claro que vim, Ellie! Eu não perderia isso por nada.” Sua voz era suave, tranquila, como o tipo de pessoa em quem você confiaria sem questionar. Muito suave, muito confiável. Eu engoli em seco. Ela se virou para mim, sorrindo ainda.
“Olá. Você deve ser a Katie. Eu sou a Clara.” Ela apertou minha mão de forma delicada, quase demais. “Jake me falou tanto sobre você. É um prazer finalmente te conhecer.”

Clara. O nome bateu em mim como uma tonelada de tijolos. Jake nunca mencionou uma Clara.
Forcei um sorriso. “Prazer em te conhecer também,” consegui dizer, tentando manter a voz firme.
“Eu trouxe algo para a Ellie,” Clara disse, tirando um pequeno presente bem embalado de trás das costas. “Espero que ela goste.”
“Oh, obrigada,” respondi, mal conseguindo manter a compostura. Eu queria fazer mil perguntas, mas em vez disso, apontei para a sala de estar, onde as outras crianças estavam brincando. “Ellie, querida, que tal você mostrar para a Clara onde está brincando?”
Ellie pegou a mão de Clara com entusiasmo, arrastando-a para o caos da festa. “Vem! Eu sou a princesa e você pode ser a rainha!”

Enquanto elas desapareciam na sala, eu me virei para Jake, com o coração batendo forte no peito.
“Jake,” disse eu, a voz baixa, mas trêmula. “Quem é Clara?”
O rosto dele ficou pálido, e por um momento, ele parecia uma presa, congelado. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando se recompor. “Ah, ela é uma... amiga do centro comunitário. Nós... temos conversado. Ela é... legal.”
“Conversado?” repeti, com a palavra amarga na boca. “Jake, a Ellie disse que ela tem te visitado enquanto eu estou no trabalho.”
O rosto de Jake ficou ainda mais pálido. “Katie... Eu... não é o que você está pensando.”
Eu senti uma onda de náusea me invadir. “Então o que é, Jake? Por que você não me contou sobre ela? E por que a Ellie acha que vocês estão... se abraçando para se despedir?”
Jake abriu a boca, mas antes que pudesse dizer algo, Clara apareceu novamente da sala de estar. Ela estava rindo, se divertindo com as brincadeiras das crianças. Eu senti meu maxilar se apertar, e a paciência começava a se esgotar.

“Está tudo bem?” Clara perguntou, com um tom doce, mas havia algo nele que fez minha pele arrepiar. Ela inclinou a cabeça, percebendo a tensão entre Jake e eu.
“Sim, tudo... bem,” murmurei, forçando outro sorriso.
Ellie correu de volta até mim, o rosto iluminado. “Mãe! A Clara me deu uma pulseira linda! Posso usar ela o tempo todo?”
“Claro, querida,” eu disse, ainda tentando manter o controle.
Jake fez uma leve tosse. “Clara, que tal ficar mais um pouco? Acho que as crianças vão adorar ter você por perto.”
Clara assentiu, mas eu notei o jeito como ela trocou um olhar com Jake—um olhar que eu não consegui decifrar, mas que não gostei nada.

À medida que a festa foi se encerrando e os últimos convidados começaram a ir embora, Clara ficou, conversando com Ellie e dando-lhe um último abraço. Quando finalmente era hora de Clara ir, ela se virou para mim, seu sorriso suavizando.
“Eu espero que possamos fazer isso de novo em breve,” ela disse, seus olhos encontrando brevemente os meus, quase como se estivesse avaliando minha reação.
Forcei um sorriso. “Claro. Obrigada por vir.”
Quando ela saiu, puxei Jake para o canto, minha voz tremendo. “Jake, o que está acontecendo? Quem é ela, realmente? Não me minta.”

Jake passou as mãos pelo cabelo novamente. “Katie, por favor. Eu não queria te machucar. Eu juro, não é o que você está pensando. A Clara é... uma terapeuta, Katie. Ela tem me ajudado a lidar com algumas coisas, depois... depois que eu perdi o emprego. Eu não sabia como te contar. Era... era embaraçoso. Eu não queria que você pensasse que eu não estava lidando com as coisas.”
Eu olhei para ele, sentindo uma mistura de alívio e confusão me invadir. Uma terapeuta? Era isso tudo?
Jake continuou, a voz mais suave. “A Ellie deve ter nos visto quando a gente se despediu. Eu não pensei que fosse um grande problema.”
“Por que você não me contou?” perguntei, o peso de tudo isso finalmente me atingindo. “Jake, eu passei uma semana pensando mil coisas. Você devia ter me contado, mesmo que fosse estranho.”
Ele assentiu, a vergonha aparecendo em seu rosto. “Eu sei. Me desculpa, Katie. Eu devia ter sido mais aberto com você.”
Suspirei, exausta. “Ok, agora sabemos. Mas, Jake, por favor. Não mais surpresas como essa, tá bom? Eu não aguento mais outro ‘mulher bonita’ aparecendo.”

Jake riu baixinho, me puxando para um abraço. “Prometo. Nada de mais surpresas. Você é a minha mulher bonita.”
Fechei os olhos, me segurando forte. Pela primeira vez em uma semana, senti que podia respirar de novo.
E enquanto o som da risada de Ellie ecoava pela casa, percebi que talvez houvesse uma lição em tudo isso. No final, a vida nem sempre era tão complicada quanto parecia. Às vezes, era só sobre dizer a verdade—não importava quão estranha ou desconfortável fosse.
Pelo menos, por enquanto, as coisas estavam bem.
Mas da próxima vez que uma “mulher bonita” aparecer, eu com certeza faria muitas mais perguntas.