O homem demorou para entender o que havia de errado com sua noiva, até que foi para a casa de campo dos pais dela.
— Mãe… Acho que você nunca terá netos — disse Miguel enquanto devorava os pastéis que Joana acabara de tirar do forno e colocava generosamente no prato dele.
— Mas por que diz isso? — perguntou a mãe, surpresa.
— Ora… Já passei dos trinta e nem sinal de uma namorada. O Pedro já tem um filho na escola e outro a caminho. E eu? Nem sequer uma candidata.
— Então ainda vais encontrar alguém — sorriu Joana. — Casar só para acompanhar os outros ou para nos dar netos não faz sentido. Para ser sincera, prefiro nunca ter netos a ver meu filho infeliz no casamento.
— Mãe, tu és um anjo! Melhor que qualquer terapeuta. A propósito, tem mais pastéis?

Dois anos se passaram desde essa conversa, e Miguel começou a temer seriamente a solidão.
Embora a ideia de estar sozinho não o incomodasse tanto naquele momento, ele começou a se perguntar como seria o futuro. No presente, ainda tinha energia, amigos e convites para encontros e churrascos. Mas e depois? Quando o telefone parasse de tocar e os convites cessassem? Ele não queria esse futuro e percebeu que era hora de tomar uma decisão.
Naquele momento, já fazia seis meses que namorava Ana.
Ela era bonita, elegante, inteligente, tinha dois diplomas e um bom emprego. Mas Miguel não sentia aquele frio na barriga ou aquela felicidade inexplicável ao vê-la.
Ainda assim, hesitava em dar o próximo passo. Algo dentro dele o fazia duvidar. Pequenos detalhes no comportamento de Ana lhe causavam um incômodo sutil, mas ele não conseguia identificar exatamente o motivo.
Ana, no entanto, parecia não notar suas incertezas. Desde cedo, mostrou que o via como um futuro marido. Apenas um mês depois de começarem a namorar, apresentou-o aos pais.
Mais recentemente, ela o pegou de surpresa ao sugerir que escolhessem um nome para um futuro filho.
— O quê? — perguntou Miguel, surpreso.
— Nada demais, só por curiosidade — riu Ana. — Não precisas ficar nervoso. Mas, falando nisso… Por que não me apresentas aos teus pais?
Miguel observou a namorada atentamente.
"Ela é realmente uma ótima pessoa… Será uma boa esposa… Teremos filhos bonitos…" — pensou ele. Então disse em voz alta:
— Claro. E, além disso, quero te pedir em casamento.
— Nossa, que romântico! Uau! — Ana riu e bagunçou os cabelos de Miguel. — Vá lá, não fiques sério. Foi inesperado, mas bonito. Um pedido à beira do rio, sob as folhas douradas do outono, e não num restaurante cheio de velas e música clichê.
Ela girou sobre si mesma, cantarolando uma música popular.
— Mãe, quero apresentar-te minha namorada… Vamos casar, e em breve teu filho será um homem casado — anunciou Miguel ao telefone. — Mãe? Mãe, estás aí? Por que ficaste em silêncio? Não estás feliz?
— Feliz, claro… Só que…
— Só que o quê? Não entendo. Tu nem sequer conheceste a Ana ainda!
— De onde tiraste que não estou feliz? Deixa para lá. Quando vêm nos visitar?
— No sábado à noite, pode ser?
Joana desligou o telefone e ficou pensativa. Ela sabia exatamente por que não se sentia entusiasmada com a notícia, mas preferiu não dizer nada ao filho.
Como explicar que o coração de mãe é difícil de enganar?
Ela não via nos olhos de Miguel aquele brilho de um homem apaixonado. Não via aquele entusiasmo de quem está verdadeiramente feliz.
Parecia que ele estava se casando apenas porque "era a hora".
E qual mãe ficaria eufórica com uma notícia dessas?
Ana queria causar uma boa impressão quando conhecesse os futuros sogros. Escolheu a roupa com cuidado — elegante, mas discreta. Maquiagem leve, postura educada.
Ela achou que foi bem recebida. O pai de Miguel ficou encantado e a encheu de elogios.
A mãe, por outro lado, foi educada e cordial, mas reservada.
— Então, o que achaste dos meus pais? — perguntou Miguel depois do jantar.
— Normais. Gostei especialmente do teu pai.
— Sim… O velho é incrível! Já minha mãe… é uma estrategista.
No dia seguinte, Joana chamou o filho para uma conversa séria.
— Gostaste da Ana, mãe? — perguntou ele, seguro de que ouviria uma resposta positiva. Mas a resposta o surpreendeu.
— Ela é bonita. — Joana suspirou. — Mas…

— Mas o quê, mãe? Eu percebo que não gostaste dela. Por quê?
— Esse é o problema, filho. Eu mesma não sei explicar. Ontem, algo me incomodou, mas não conseguia entender o quê. Hoje, finalmente percebi.
— E o que foi?
— Acho que ela não te ama, Miguel… Para falar a verdade, acho que ela não ama ninguém além de si mesma.
— Mãe, que exagero…
— Pode ser que eu esteja errada. Mas meu coração diz que essa moça não te fará feliz.
— Ei, Joana… — interrompeu o pai de Miguel. — Não enche a cabeça do rapaz com bobagens. A menina é bonita, educada, tem um bom trabalho… O que mais ele poderia querer?
— Sim, claro… — Joana concordou a contragosto. — Só quero que nosso filho seja feliz e que a esposa dele o ame de verdade.
As palavras da mãe tocaram Miguel, mas ele tentou esquecê-las.
Seguiu com os preparativos para o casamento. Alianças compradas, lista de cem convidados feita. Nada parecia capaz de impedir a cerimônia.
Até que algo inesperado aconteceu.
Uma noite, Ana ligou para pedir um favor:
— Miguel, meu pai precisa ir até a casa de campo buscar uma ferramenta, mas está sem carro. Podes levá-lo?
Ele aceitou de bom grado. Sentiu-se parte da família.
Ao chegar à casa de campo, um cachorro correu até eles, abanando o rabo, e uma gata miou pedindo carinho.
— Sai daqui! — disse o pai de Ana, afastando o cachorro com o pé.

Miguel estranhou a reação, mas o que o chocou foi ver Ana chutar a gata com desdém.
O estalo em sua mente foi imediato.
— Não vão levar os bichos para a cidade? — perguntou ele.
— Não, claro que não. São animais da casa de campo. Se sobreviverem ao inverno, ótimo. Se não… Paciência. No próximo verão aparecem outros.
Miguel ficou em silêncio na volta para casa.
O olhar do cachorro ao vê-los partir não saía de sua mente.
— Empresta-me a chave da casa, por favor? Acho que perdi meu cartão do banco lá.
— Está bem, mas eu não vou contigo. Tenho manicure.
Miguel não se importou.
Pegou os animais e os levou para a cidade. Encontrou uma clínica veterinária aberta e, ao procurar comida para os bichos, cruzou o olhar com uma mulher de olhos cor de avelã.
Naquele instante, sentiu algo que nunca sentira por Ana.
Um ano depois, Miguel agradecia ao destino por aquela noite.
Beatriz não era tão bonita quanto Ana. Era um pouco mais velha. Tinha um filho pequeno.
Mas era a mulher que ele queria segurar nos braços e nunca mais soltar.

— Mãe, espero que não digas que o filho dela é um "peso extra".
— Filho, de jeito nenhum… — sorriu Joana. — Pelo contrário. Não a percas. Finalmente encontraste tua verdadeira metade.